A campainha de sua casa tocou duas vezes. Ele estava na sala lendo um livro de contos de um autor desconhecido e levantou aborrecido já pensando em quem seria àquela hora. Um vendedor de ilusões? Uma pregadora? Um assalto?
Abriu a porta e no portão havia um menino de seus cinco, seis anos, cabelos aloirados, sardento e olhos azuis que olhava ansioso para os lados. Ele, intrigado, olhou para os lados esperando alguém saltar sobre ele, porém nada aconteceu. Aproximou-se do menino acautelado.
--Como se chama?
A criança, com seu olhar assustadiço, lindos olhos de um azul profundo, olhou-o meio desconfiado e disse, sussurrando:
--Não sei.
--Não sabe seu nome??
--Não.
Começou aí uma tarefa digna de um detetive que ele se impôs: Procurar os pais daquela criança linda, que viera parar na porta de sua casa, aparentemente faminto, confuso e assustado.
--Deixaram você aí na porta?
--Sim. Me deixaram e não sei quem foi.
--Você tem seus pais? Isto é, sabe quem são seus pais?
O menino, pele clara e olhos redondos e cercados de sardas, pôs o dedo na narina direita e visivelmente incomodado com a pergunta, deixou-o atônito:
--Sei, mas eles me disseram para não contar nada a ninguém sobre eles. Não agora.
--Como assim?
Decidiu ir ao Distrito Policial mais próximo. O policial, mais interessado em coçar a cabeça e olhar um aparelho de televisão surrado e antigo, onde jogadores corriam modorrentos atrás da bola que quicava de um lado a outro da telinha, atendeu-o com um bocejo.
--Em que posso ajudar?
--Quero registrar o seguinte: Este menino veio parar em minha porta!
--Então, não é seu filho?
--Bem, na verdade, sou divorciado e meus dois filhos moram com a mãe deles.
--Não pode ser uma produção independente da patroa?
--Não acredito que esteja dizendo isto assim, desta forma; afinal, vim lhe trazer a criança para dizer que ela pode ter sido raptada, roubada, sei lá e fugiu do cativeiro. Está com fome e assustada, confusa... É uma criança! E não sabe nem seu nome!
--Estou vendo! Mas, voltando à pergunta...
--... Não, minha ex—mulher não faria algo semelhante. Jamais abandonaria uma criança linda destas desta maneira. Não. Definitivamente não.
Ambos olharam para o menino, que coçava a cabeça imitando o policial de forma discreta, com um discreto sorriso nos olhos, aparentemente se divertindo com a situação. Seria impressão dele ou o menino os observava sempre que conversavam a respeito dele?
--Vou registrar sua queixa, mas definitivamente o senhor terá de levar este menino consigo até a justiça decidir qual será seu destino.
Ele se acostumara a viver sozinho, de tal forma que não tinha nada que uma criança de seus seis anos pudesse comer. Olhou o pequeno que brincava com os botões do rádio de seu carro enquanto ele procurava algum mercado aberto para comprar o que fosse necessário para alimentar o garoto.
--Você gosta de comer alguma coisa em especial?
--Adoro batatas fritas.
--Porcaria...!
--Uma delícia! Vocês fazem bem estas coisas aqui.
A frase soava esquisita, na boca de uma criança de seis anos, ainda mais na situação absurda em que se encontrava.
--Você não quer que o leve à casa de seus pais? Posso ir, eu deixo você lá!
--Acho melhor não.
--Por quê?
--Eles não iriam gostar nada, nada.
Olhou o garoto que impassível, continuava a mexer nos botões, dominando completamente suas configurações em questão de minutos.
--Onde aprendeu a mexer assim?
--Ah, meu pai tem um bem melhor que esse aqui—e apontou com certo desdém o rádio de última geração que ele instalara em seu carro, convencido pelo vendedor de voz esganiçada que lhe oferecera o produto.
O resto do caminho fizeram em silêncio, ele pensando no que dizer, o garoto examinando-o com olhos críticos e severos por um lado e repentinamente, doces e inquiridores por outro lado. Era impressão ou o matiz de seus olhos mudara um pouco? Chegou ao mercado e levou o menino consigo. Conheciam-no lá, sempre comprava as coisas mesmo quando ainda era casado para empanturrar os filhos de guloseimas. Ainda bem que não haviam puxado a mãe em gordura.
--Batatas fritas!
--Está bem, está bem. Vou levar, mas você tem de comer alguma coisa mais do que isso!
--De acordo, mon capitan.
Ele olhou o menino desconcertado. Definitivamente era surreal o que estava vivendo. Ele tinha mesmo cinco anos ou era um anão disfarçado de criança?
--Seus pais gostam de comer essa coisa?
--Adoram sua cozinha. Adoram, simplesmente amam o que fazem aqui.
--Aqui, onde?
--Aqui, ora.
Aqui. Simples assim, era aqui mesmo, em sua pequena mente perturbada sabe-se lá por qual motivo, talvez um seqüestro desbaratado, talvez a desova de um crime medonho, talvez o último remanescente... Ele decidiu não forçar mais, o pequeno adorava o pacote de batatas fritas que comia avidamente. Achou graça quando ele chupou os dedos e viu em seus olhos um tom violáceo que não havia visto antes. Seria a satisfação de ter algo nas mãos que cobiçava ou era a luz que batia de ângulos diferentes e refletia em suas pupilas?
Foi para sua casa e o garoto entrou correndo, como se fosse a sua. Ele entrou e procurou em sua sala tudo o que pudesse diverti-lo, manipulou a televisão de plasma como se já a conhecesse de longa data, zapeando os canais de forma vertiginosa enquanto ele arrumava um quarto que fora de seu filho mais novo e preparava o garoto para dormir. Ele parecia entender a situação e resignado, obedeceu a sua ordem de escovar os dentes e colocar um pijama que fora de seu filho e que cheirava a lavanda, ainda após três anos dentro do armário que fora de uma família e agora só lhe trazia lembranças dolorosas.
--Você está triste?
--Como sabe?
--Seus olhos. Você está triste com o pijama.
--Não é o pijama, mocinho.
--Eu sei. Posso por?
--Pode.
Ele o olhou embasbacado. Como era esperto! Sabia ler as emoções nas entrelinhas. Pôs o menino para dormir, apagou a luz e deixou um abajur ligado no chão, o garoto se deitou e logo se pôs a ressonar, quase que imediatamente.
Ligou a televisão.
Fatos estranhos vêm ocorrendo na parte leste do país. Há relatos de que crianças vêm sendo abandonadas por pais relapsos, aparecendo na porta das casas de pessoas estranhas, aturdidas e aparentemente desmemoriadas. A polícia local acha que pode ser ação de uma quadrilha de raptores que esteja deixando de lado o produto de seu medonho crime. Ouçam o relato de Jessica, uma solteira que vive sozinha há anos...
“Eu estava no banho quando ouvi a campainha. Fui lá e à beira da porta de meu trailer estava uma linda menina, de seus sete, seis anos. Linda. Eu a peguei para mim, ninguém me tira ela. É a filha que nunca tive; vou avisando...”
Relatos como esse vêm intrigando as autoridades; o governo federal foi mobilizado a investigar a origem das crianças; já se contam às dezenas. Espere, há mais... Há relatos de que são centenas...
Seu coração disparou. O que é isso? O que significa isso? Então não fui só eu, há outros! Que tipo estranho de acontecimento era este? Foi conferir o garoto no quarto. Ele se assustou, porque o menino estava de pé, ouvindo um rádio que falava sobre os estranhos acontecimentos no leste...
--Estão falando sobre mim, não é?Sobre mim, sobre... Nós...
--Não sei. Nós?
--Sim. Eu e... Os Outros.
--Outros?
--Você viu na televisão que eu sei.
--Você anda me observando, menino? Quem é você?
--Eu não sei, já disse. Meus pais pediram para não contar a ninguém, ainda não. Eles não querem que as pessoas perguntem muito. Sabe, não querem que você fique assim perguntando tanto.
--Eles sabem que está aqui?
--Sabem de todos.
--São... Bravos? Batem em você?
--Eles são bravos.
Seu olhar ficou á deriva, como se um transe dele se apossasse ou como se esperasse um sinal vindo de algures...
Soou a campainha, estridente, insistentemente.
--Quem será a esta hora?
--Meus pais. Vieram me buscar. Falei de suas batatas fritas! Falei de você. Eles não gostaram nada, nada...



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