Poetagens e Tinturarias Vertebrais


15/05/2009


O Lado Bom das Coisas

Minha história começa pelo final. Minha mãe já me dizia, no meio de seu sofrimento, que tudo tem seu lado bom e seu lado ruim; ela conseguia ver o lado bom de tudo. Era impressionante!


Modéstia à parte, me acho bonita. Quando passo, me olham: Olham meu porte de deusa de ébano, olham meu perfil de sereia de rio, isto às vezes incomoda mas, e daí? Pelo menos sou olhada.

 

--Gostosa!

--Meu Deus, isso em casa...

--Se enxerga, malandro!

 

Não sou para qualquer um! É aí que começa minha história, num dia chuvoso, eu sozinha em casa, sem luz e à luz de uma vela que teima em sobreviver. Como se fosse minha chama interior, ela bruxuleia e enche de sombras as paredes da pequena sala de minha casa aconchegante, onde eu tiro minhas roupas ao chegar e desfilo como vim ao mundo, satisfeita pelo vento entre minhas coxas torneadas. Satisfeita da vida e comigo mesma, gosto do que vejo no espelho. Só não gosto de uma certa pinta, ela se acerca de...Bem, não vou contar tantas intimidades assim. É quando eu penso nele.

 

--Sinto tua falta, morena!

--Então, venha para cá!

--Tu sabes que não posso!

--Mas na prática...

--Não posso...ainda!

--Você me enrola! Quer o meu carinho e não luta por ele!

--Já conversamos sobre isto...Muitas vezes... não me faça sofrer! 

Ah, é sempre ele que sofre. Sempre ele, com seu egoísmo, sempre virado ao próprio umbigo; sempre ele, sempre sua família. E eu? Não conto nestas horas? Só tenho valor na cama? Só sirvo para lembrar a ele que ele deve se esquecer do que foi e viver o que poderia ser? 

--É para isto que ficamos juntos?

--Já falamos sobre isto... 

Ele sempre interrompe nossa conversa assim. Diz que me ama, mas fica dias sem aparecer, nem telefona. Eu olho para a janela embaçada e já nem sei se o que turva a imagem da cidade enevoada é dela mesma ou uma ilusão de meus olhos cheios de lágrimas que eu disfarço no dia a dia, no trabalho, nas ruas por onde passo leve como uma pluma e pensativa como uma estatua. 

--Minha nossa, é um monumento.

--Minha mãe precisa de uma nora assim...

--...

--Não sou uma qualquer! 

Não sou, não. Lá onde trabalho, todos conhecem meu sorriso. Dizem, eles dizem, que meus dentes parecem o teclado de um piano, de onde saem lindas notas musicais e perfumadas, olhem só, que elogio! Quem diz isto são meus amigos. E ele de vez em quando me despreza, diz que está cansado, que trabalhou muito e que prefere ficar em sua casa, que é onde mora sua família, não a nossa que é onde vive seu verdadeiro amor, que sou eu. Pelo menos eu acho que sou mas cá entre nós, que ninguém me ouça neste dia feio e maltrapilho, eu acho mesmo é que é comodismo puro. 

--Não seja tola!

--Não me chame de tola. É o que menos eu sou! Nunca mais diga isso de mim, ouviu?

--Querida...

--Não me venha com essa de querida, docinho, blá blá blá. Quero ações concretas. Eu faço tudo por você!

--Ficar nessa casa me esperando é fazer algo por mim, você acha?

--Saia de minha casa!

--Não quis dizer isso...

--Saia já! 

Bem, foi pelo final de um grande amor que principiei a contar minha história; às vezes o princípio é o fim e o fim pode ser um recomeço. Como não sou de ficar triste demais, como adoro os raios de sol que a vida nos traz, como amo de paixão andar pelas ruas leve e solta... 

--Gostosa!!!

--Pelo amor de deus, que saúde!

--Por essa eu me perdia, barbaridade tchê!

Enfim...Tudo tem o seu lado bom...

Escrito por Flavio Luengo às 23h25
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