Poetagens e Tinturarias Vertebrais


09/11/2009


Chá da Tarde

Ela contemplava o céu, nuvens poderosas na base e algodonosas ao alto; não seria desta vez ainda que a previsão acertaria.
--Por certo, hoje fez muito calor, não?
--Decerto.

Sua amiga de tempos imemoriais continuava repetindo suas palavras, como sempre o fizera. Obra-prima da boa educação, não soubera dizer não ao seu pai que a casara com um marido desalmado, nem a ele mesmo quando resolvera que o melhor negócio seria mudar para perto da verde selva, onde negócios prosperariam entre as tribos escondidas na mata e jazidas infindáveis fariam seus bolsos se encherem de dinheiro. Há males que vêm para o bem, pensara ela, pois ali mesmo ele morrera de impaludismo e fora ali que ela conhecera seu novo companheiro, felizmente.

Fazia tempo que se acostumara ao calor implacável que deixava a todos apalermados; todas as suas amigas que vinham do sul, quando e se é que vinham mesmo (ultimamente dera para duvidar se algumas de suas amigas já não a visitavam porque haviam morrido e outras que ainda se aventuravam por lá não seriam realmente espectros).

--Você sempre me repete. Parece um eco!
--Você sempre diz isto de mim. Sabe, querida?
--Sim?
--Hoje sua empregada acertou no sabor do chá.
--É uma espécie de maracujá. Delicioso, não?
--Vai me dar uma modorra...
--Dizem que acalma.

Pois sim que acalmava. Nas noites infernais, onde as nuvens se adensavam e chovia torrencialmente, a pele grudava-se no travesseiro e por mais que se abrissem as janelas, nada aplacava o calor. Nem mesmo o proverbial poder do maracujá a fazia dormir. Dava-se ao luxo, então, de recorrer ao poderoso calmante que seu falecido companheiro lhe trazia nas horas vagas ou lhe deixara escondido, ela não sabia direito se o que sonhava era real porque se mesclava de maneira tão perfeita à sua noite que ela de fato o sentia ao lado e se arrepiava e quando dava por si, estava lá a pílula que escondia seus mistérios.

--Por falar em acalmar...
--Conte-me tudo querida. Aqui, a esta altura da vida, nesta tarde acachapante, com este sol...
--...Ele me visitou de novo.
--Olhe, eu acho que você precisa é de ajuda.
--Mas...É tão real!
--Mas como? Ele já não morreu?
--Os dois já morreram. Ele gostava tanto de mim! Ao contrário do outro, que me surrava e dizia ao meu pai que eu caíra da escada, o sujeitinho. Bom, mas ele me trouxe para cá e foi aí que conheci meu visitante...
--Como diz meu amigo, a selva tem seus mistérios. Você o conheceu como mesmo?

Podia lembrar-se de todos os detalhes. Fora uma experiência única, inigualável, de textura infinita. Ela e seu atual marido andavam, assim como se anda na rua, sem o que fazer, ela olhando umas barracas que imitavam outras que ela havia visto no Ver-O-Peso, em Belém. Súbito, um reflexo lhe chamou a atenção, o sol se aquietara num cristal de um lustre que jamais combinaria com uma casa daquelas paragens e atrás do sol resguardado, o olhar zombeteiro dele, o olhar que a cativara pela ironia fina, como se pensasse como ela sobre o lustre e seus absurdos pingentes; quem haveria de colocar dentro de sua casa algo semelhante a uma fogueira de vidrilhos? Pois um homem de baixa estatura, com um bigodinho muito estranho, óculos de aro fino e raros cabelos amealhou o tal lustre. No entanto, o zombeteiro lá estava e ela, que a esta altura tinha seus trinta e cinco... Cabelos aloirados em cachos, uma bela mulher para os padrões da época, claro que percebeu que a zombaria era para o seu par, não para ela, muito menos para o baixote que saíra orgulhoso com sua aquisição. Na certa, ele deveria saber do fino trato que recebia de seu marido ardiloso e vil (ele era conhecido como mau negociante e pior caráter) e pensava o que faria tal mulher para estar, ainda, com semelhante tipo. Não que seu marido não fosse bonito: Tinha lá seus dotes, nos arroubos das noites ela tentava sentir alguma coisa, mas tudo que não passasse de alguns minutos, pronto, já estava virado e ela de olhos marejados, via o teto cair sobre sua cabeça. Nestas horas maldizia seu pai que a enrascara fazia quase dez anos e ela também se culpava pela prisão que a enrodilhava ano após ano. Talvez daí a sedução daquele olhar a tenha cativado. Daí, para conversarem, foi um passo e o fizeram sob as barbas de seu marido, entretido com negociantes (ele sempre fazia isto, como que para irritá-la, metia-se a falar de preços da borracha, do cacau, das carnes de novilhos e boi zebu... Era aviltante e ai dela se reclamasse, cairia tantas vezes da escada quantos degraus ela tinha.)

--Era bonito?
--Não mais que meu marido. Mas tinha algo que ninguém tinha...
--Tinha o ar do mistério da selva.
--Talvez. Tinha um quê de índio, mesmo. Um cabelo bem escuro e a pele mais amorenada. Talvez tivesse mesmo algo a ver com os índios, não aqueles que viviam e vivem perto da civilização, mas algo mais nobre. Tinha sempre de sair da cidade, para se embrenhar em grotões que nunca eu ouvira falar. Na realidade, eu nunca soube o que ele realmente fazia. Às vezes, vinha com flores que nunca cresceriam em parte alguma senão no meio da floresta; então criamos um canto que você conhece...
--Claro, querida.
--E lá brotavam aquelas plantas esquisitas, com flores que davam tonturas de tão perfumadas, outras com flores que pareciam, bem, você sabe o quê.
--O tal mistério da selva.

Ela gostava de sua amiga, esta que sempre dizia que ela repetia suas palavras, mas não, ela é que era a ouvinte porque escutava tudo o que ela narrava com tal delícia que dir-se-ia espelhar-se nela para viver uma outra vida que não houvera para ela. Bem, ela a achava divertida, a ironia pareava às vezes com a de seu estranho visitante, isso enquanto ela falava sem parar nas investidas que ele dava e a enlouqueciam...

--... O tal mistério da selva.

Riam as duas, viviam uma da memória da outra, uma mais que a outra e outra por demais de uma. Contemplavam o céu azul, as poderosas nuvens já serrilhando o céu com faíscas ao longe, iluminando o tênue horizonte que se manchava das luzes da cidade e elas se lembravam das festas que haviam freqüentado juntas, obviamente sabedoras dos segredos mais constrangedores dos convidados mais do que os seus próprios. Pelo menos antes destas festas, ela não caíra da escada, riam-se as duas à beça. Mas olhe, quem está ali, ao canto, com uma taça de vinho na mão de tez indefinida?

--É ele!...
--Quem?

E ela olhava de novo e ele não estava lá, talvez se disfarçasse para não fazê-la passar vergonha com o marido a tiracolo. Ela disfarçadamente tentava vê-lo, via uma mão com uma taça de vinho, ele conversava animadamente com outras mulheres, só para espezinhá-la, certamente não estaria falando sobre negócios e sim sobre as belas e poderosas árvores que abrigavam as exóticas tribos, pois sim, iriam acertar as contas noutra hora, em outro dia.Ah sim, ela haveria de querer saber quem elas eram e se ele se interessara, não sem antes ter de sorris amarelo para o marido sisudo, animado com seu jornal à mesa, dando tempo ao tempo para poder voar ao seu ninho de plantas e humores secretos.

--Ele estava bem ali!
--Estou começando a achar que este seu misterioso...
--Amigo.
--Sim, estou começando a achar que ele não passa de pura e simples diversão de sua mente.
--Não duvide nunca de minha sanidade!
--De forma alguma, você sabe que eu jamais faria isso!

Então assim que seu marido saía ela dava um jeito de sair de casa, sem despertar as suspeitas de seus empregados. Ia sempre a instituições de caridade, quando na verdade...

--Quem eram aquelas?
--E você se importa? Afinal, tem marido!
--Pare de me provocar!
--Bem, não era eu que estava com uma moça a tiracolo.
--Nunca gostei dele!
--Porque não fica comigo?
--Seria um escândalo!

Escândalo é o que faziam depois de discutirem, os humores misturados ao perfume de seus corpos suados de amor, desejo, calor e cansaço. Para ela estava bom assim, para ele que fugia sempre para a selva, melhor—não precisava se prender a ninguém e nenhum dos dois se cobrava isto.

--Sempre que precisar dormir, mas assim, dormir como num passe de mágica, tome um destes, quando se lembrar de mim e não conseguir dormir, pegue e tome.
--O que é isto?
--Um pajé de uma tribo muito afastada fez e deu a mim. Diz que vem de uma planta mágica. Antes de dormir, você vê a magia do mundo se abrir ao seu olhar. Porém, preste atenção ao que a magia lhe diz, pois é dos sonhos que se faz a realidade; pode-se aproveitar quem sabe uma parte deles para se moldar o mundo.
--Onde aprendeu tudo isto?
--Minhas viagens solitárias pela selva me ensinam tudo. Gosto do silêncio imponente, das enormes árvores antigas; gosto de meus amigos que disparam suas flechas sibilantes para me avisarem que ali é seu domínio. Gosto das águas nos riachos, elas me ensinam sobre a paciência de seguir seu curso até onde nascem. Talvez daí nasça minha sabedoria, nas nascentes dos riachos que dão mais trabalho para serem achadas. É nelas que busco minha inspiração, é delas que trago as flores mais raras para nosso abrigo momentâneo.

Ela se lembrava de tudo isso, ali, com sua amiga inseparável, enquanto bebiam o chá improvável de uma fruta rara colhida por sabe-se lá quem, enquanto as nuvens despejavam em grandes faixas cinza sua fúria em águas marcadas de hora para derramar, como um relógio dos mais exatos, tanto que os mais cuidadosos sempre recolhiam suas barracas, sabedores do horário certo da monção. Não é interessante, saber a hora pela hora das águas?

--Certamente, querida.

E ao final de um dia de muitas conversas, era chegada a hora dela partir. Não sabia se ela partiria para mais uma vez, naquela semana, deixar o conforto de sua casa arejada para colocar a conversa em dia com sua amiga. Naquele dia, tal era o calor que ela, certamente, faria uso da tal pílula, guardada a sete chaves em sua cabeceira, numa caixinha ornada de pequenos cristais de duas cores, onde brilhavam as pílulas verdes que ela conhecia. Pegava então o copo de água, tomava uma delas (fazia muito tempo que não a tomava) e esperava, porque a magia certamente moldaria seu mundo. Sabia, então, que não estava só, porque ele suavemente, sub-repticiamente, penetrava em sua solidão e de onde quer que estivesse falando, seja de qual árvore colhesse qual fruto ou flor, primeiro ela ouvia os sibilos das flechas e então escutava o rumorejar das nascentes que certamente ele escolhera para lhe fazer companhia o dia que ela quisesse.

Escrito por Flavio Luengo às 20h38
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27/09/2009


Ela sempre volta

Na calada da noite, eu atiro a guimba do cigarro ao mar que em suaves movimentos recusa mais um pedaço de lixo da humanidade, como as garrafas que enchem o cais e bóiam desobedientes ao vento e ao léu. Só olho para o céu e está claro, quase sem nuvens. Posso ver além que luzes delineiam um horizonte flutuante e fugidio, talvez os barcos de pesca que animavam minha infância doce e curta, talvez as marcações para que os grandes navios não encalhem no estreito canal que leva ao porto. Os barcos têm de ser guiados pelos rebocadores que os levam ao ancoradouro e muitos permanecem na fila, esperando o momento de atracarem ou de desembarcar suas cargas que enchem de containeres as ruas de todo o bairro que cerca os arredores. Lá vivem os antigos pescadores em casas que definham, os marujos que suados voltam de grandes viagens no sumidouro do mundo; vive uma fauna de mulheres de tipos exóticos sempre perfumadas esperando seus antigos donos e novos clientes. Vive uma corja que se esconde e sai à noite enquanto eu miro o espelho flutuante que é este mar a refletir o meu rosto e as luzes de várias cores do barco iluminado que chegou com turistas europeus. Posso ouvir a algaravia, os pequenos excitados com a possibilidade de descerem à terra depois de dias de prisão forçada no navio de cruzeiro e as mocinhas empenhadas em mostrarem predicados aos nossos famosos machos latinos, os velhos esperançosos de reencontrarem os antigos parentes perdidos.

 

Passa o jorro do farol, a cena toda iluminada pelo lampejo azul da lâmpada renovada, uma espécie de flash que fixa em minha retina a sombra do grande barco e o nome, pintado em garrafais letras no casco, Andrea Del Mare. Nome de mulher? Homem? Conheço Andréias, Andreas. A última que conheci foi bem aqui, onde meus pés teimam em permanecer grudados como se uma espécie de cola os fixasse ali ou como se um amálgama de águas vivas os prendesse em suas cintilantes fosforescências (mais uma lembrança da infância, as redes iluminadas pelas águas-vivas, os polvos e lulas e os peixes que iam direto para a mesa dos felizardos que vinham enroscados com as grossas cordas do arrastão, os gritos roucos do dono da armadilha imensa que pegava toda uma praia); É o bastante para eu acender outro cigarro, enchendo o peito da acre fumaça e sentindo a nicotina que amarela minhas unhas penetrar pelos vasos, pela rede de alvéolos e pelos lábios duros de tanto esperar.

 

Onze da noite.

 

De onde vem tanta gente? Como eles povoam este mundo onde se perdeu minha Andréia? Como ela estará depois de tantas promessas não cumpridas? Como navegará agora minha amada que se foi assim, de supetão, quando lhe deu na telha? Sorvo a fumaça que azul se confunde com o arroxeado do céu e se mistura aos miasmas do ar pesado e quase fosco das paragens do atracadouro, um cheiro meio que de mijo, meio que de suor, talvez de um galpão abandonado. Um lugar cheio de ratos e vida, água podre e golfinhos que teimam em pedir comida a nós, os reis da terra firme. Nós, estreitos e sós, que ousamos acreditar nos cantos de tantas sereias, nos iludimos tanto com tantas Andréias Del Mare.

 

Onze da noite e tudo não passa de um momento, de um segundo, como o flash do farol que volta a iluminar os cantos do mundo com seu clarão de segurança. O suave barulho das águas a baterem chegando em ondas vindas não se sabe de onde, talvez tenham bordejado a África, quiçá passando por Canários, Cabo Verde e Açores ou o próprio estreito de Gibraltar e venham grudadas ao casco cheio de conchas e parasitas que os turistas não vêem porque mergulhado no fundo; isto ninguém vê, a vida brota nos meandros mais escuros e estreitos, nas quilhas mais improváveis pula um lindo Delfim, mas este é um peixe das profundas águas que só os pescadores pacientes sabem pescar, não os amadores com suas pequenas varas que teimam em enrolar-se umas às outras na beirada da praia.

 

Suspiro e sorvo o ar da madrugada que se insinua, são onze da noite, o farol passa de novo seu arrastão e colhe os olhares esgazeados das damas noturnas, dos cansados marujos, das velhinhas que descem as escadas rumo à terra firme, amparadas pelos netos que gritam infames piadas e pelos carregadores de malas—não sei quantas descem ou para que sirvam.

 

Gosto de imaginar o que farão em terra, quais hotéis encherão, quantos dormirão em tantos quartos; gosto de ver as moças passando carregando impossíveis sombrinhas (faz muito sol nestes trópicos) e seus namoradinhos recém-adquiridos na viagem e que logo se diluirão pelas praias ou ruas da cidade que eu vejo daqui, os jardins iluminados a perder de vista; quantos se esconderão entre as árvores para roubarem beijos à amada como eu fiz com minha dama? Quantos durarão mais do que um verão ou sucumbirão às mais doces tentações que existem de diversas formas e alturas esperando qual caranguejos nas suas tocas e guarda-sóis?

 

Onze da noite e tudo não passa de um clarão, um arrastar de nuvens cheias de águas vivas; a vida não passa de um lampejo qual um farol que teimamos em seguir e que guia nossos destinos até o fim, até o final de nossos tempos que não obedece ao tempo marcado e sim a um Tempo mais que perfeito, no batimento descompassado de nossos corações ao ver os olhos da menina, no suave despertar dos sentidos pelo beijo que se segue infinito e depois, com um clarão, nos faz voltar ao frio ar que se espraia trazendo as brisas marinhas às minhas narinas, junto com os últimos farrapos da orquestra que ainda toca a bordo do grande barco.

 

Eu gostaria de estar lá dentro, talvez a achar a minha querida enrodilhada com um capitão qualquer, bêbada de alegria; talvez amasiada com um estrangeiro de olhos distantes a lhe prometer mundos e fundos, iludindo e confundindo a cabeça cheia de cachos que pousou um dia em meus ombros. Ah, sim, isso mesmo: Cachos aloirados. Eu queria ouvir os acordes da canção e voltar os olhos para ela e ela perceber num instante, num lampejo de um flash de alguma máquina fotográfica—ou seria o farol distante a sinalizar o Tempo certo—que eu não merecia estar aqui à beira, os lábios ressequidos, as mãos vazias, esperando que ela voltasse assim, meio de surpresa, meio que pedindo desculpas.

 

Aí eu dançaria com ela como estou dançando sozinho na beira do porto, cigarro na boca, a guimba quase queimando o filtro, uma valsa inconseqüente e linda e os olhos dela brilhariam e diriam:

 

--Eu te amo.

 

Beberíamos champanhe, vodca, comeríamos a lula que ela adorava; esparramaríamos nossa louça no quarto, misturaríamos nossos corpos aos sons dos motores do navio que nos levaria de volta ao Estreito, desembarcaríamos em Madagascar e gozaríamos feito loucos.

 

Gosto de pensar no que seria se não fosse sua doce ausência, se eu não fumasse tanto, se a água não fosse tão viscosa e se eu tivesse mais rumo no mundo.

 

Desce uma moça vistosa desacompanhada. Posso ver os seus cabelos, posso adivinhar seu olhar; é o local que sempre combinamos.

 

Gosto de pensar assim.

 

Ela sempre volta no fim.

Escrito por Flavio Luengo às 21h52
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22/09/2009


Lady, latina, is a tramp

Se eu fosse Frank de minha boca sairiam todas as notas noturnas do mundo, paralelas às de todas as bocas vermelhas de champanhe, ah seria uma beleza. Se eu fosse Sinatra nenhuma me escapava, eu com aqueles olhos e elas com aquela ironia, abusando para serem provocadas. Ah que fantasia que nada, não precisaria; quem não quis ser alguma vez Frank e ter sua voz para narrar nos ouvidos das esquinas as trajetórias de nosso mundo sem rumo?


Se tivesse aquela expressão nas pupilas quem delas me resistiria? Então, estalando os dedos, eu ouviria os pianos acompanhando meus passos lentos, compassados com a música dos meus sonhos clara em minha cabeça, enquanto muitos rostos se virariam à minha harmoniosa passagem, os bicos de meus sapatos brilhando à luz de todos os Ambassador do mundo.


Para quê pedir bebida? Viria o caviar, viria a notícia do dia em minhas mãos, dada por gentil ação de uma belezoca qualquer que me cercaria de agrados e mimos, com o drinque estrangeiro e sua indefectível azeitona pendurada que ela tiraria com a suave rapidez de uma Nefertiti, a danada. Eu só faria cantar em seus ouvidos trêmulos e dançaria talvez com ela ou com as outras em torno.


Nada de mornos pratos, nem me digam de lágrimas vãs; eu não as entenderia de qualquer forma porque meu mundo seria outro, teria outras peles, outras formas. Então meu paladar seria sutil assim como meu tato tocaria de forma diferente, se eu fosse Frank. Qualquer um que saiba o que significa dançar à luz da lua saberia de onde eu falo. Meu nome estaria estampado nas nuvens, se Sinatra me habitasse.


Pena que amanhã é segunda-feira. Tenho de cantar noutra freguesia, dar outros dós no desafino; é meu destino, meus sapatos não rebrilham tanto, graxa de terceira. A vagabunda que me cerca é de outro estilo, minha maladragem não permite que eu tome vodca, só pinga e eu tenho de trabalhar pendurado em trens que nunca chegam. Nada de notas plangentes, só o plac plac da multidão cansada, o viaduto do Chá e seus pedintes. Ah se eu fosse Sinatra, cantaria na chuva e dançaria como Astaire, mas espere, não é esse não, ah maldita dose a mais que eu sempre engulo depois do pretinho. Para calibrar um bom início, lá vou eu.


Lady, Latina, is a tramp.

Escrito por Flavio Luengo às 23h25
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17/09/2009


O Bom Samaritano

Encontrei a moça aos prantos.  Ela chorava sem esconder sua mágoa de ninguém, do tipo que chora sem vergonha nenhuma; era um lamento ao mesmo tempo dolorido e vistoso.

 

--Ele me paga!

--Quem é ele?

 

Voltou a chorar e que remédio? Eu era o único que poderia ouvi-la. Engraçado como, nestas horas, todos se afastam, como se o choro dela transmitisse uma doença. Sabe quando um epiléptico cai no chão e todos têm medo de tocar nele porque se acha que a saliva do doente transmite a doença? Pois é.

 

--Ele é ele, ora. É um panaca. Estragou minha vida, mas ele me paga!

 

Vistosa a menina; dona de um belo par de coxas realçadas por uma saia justa, do tipo que sai do lugar a hora que ela queira ou que queiram. Incrível deixá-la assim, só, chorando sem socorro algum. Não podia deixar de estender minhas mãos, um abraço amigo nestas horas faz a diferença. O que me remete diretamente aos meus amigos queridos que me chamam de grande santo, reputação ilibada que tenho. Podem comprovar!

 

--Mas que mal afinal o panaca fez a você?

 

Ela olha incrédula para mim, erguendo a cabeça num movimento gracioso que combina com seu fino pescoço e um par de olhos crava-se em minha bondosa face, interessado que estou pela beldade que se esvai em lágrimas que escorrem pelo seu rosto.

 

--Não interessa!

--Opa, eu sou todo ouvidos. Estava passando e vi você chorando e sabe, não posso ver uma moça assim chorando que quero logo ajudar.

--Você tem um bom coração. Está em sua cara.

 

Não sei se ela falava com sinceridade mesmo ou se já antevia meu bom espírito samaritano, o fato é que foi se acalmando e respirando fundo enquanto eu lhe oferecia lenços de papel para que assoasse o nariz, charmoso nariz de ponta fina, encimado por um olhar que devia ser matador, quando ela estivesse melhor. Claro está que o garçom do bar já preparava uma boa dose ao meu sinal, velho conhecedor de meus hábitos de freqüentador antigo daquelas paragens.

 

--Vamos para um lugar mais agradável?...

...E a levei á mesa do barzinho. Lá estavam duas doses do melhor uísque, grande amigo do homem nessas e noutras horas.

--Quer um cigarro?

--Obrigada.

 

Tomou o cigarro entre os dedos com maestria de fumante inveterada. Rodeou a boca do copo com os dedos indicador e médio e desatou a falar daquele que lhe fizera mal.

--Ele me paga!

--O que realmente foi o que ele fez a você?

--Deixou-me na mão. Fiz o que fiz por amor, sabe e ele dizendo que ia ficar comigo, só comigo e nada mais. Bela ilusão.

 

Por falar em mão, a minha já estava em seu ombro direito, enquanto a outra pegava o copo e levava à boca uma dose da bebida envelhecida em tonéis de carvalho. Ah, como me lembro dessas palavras, envelhecida em tonéis!

 

--... Aí ele me deu o anel. Esse aqui: olhe! Bem esse aqui. Prometeu mundos e fundos, disse que ia ficar comigo, a outra que se danasse, coisa e tal.

--Bem se vê que ele tinha muito bom gosto.

 

Um certo olhar de fúria inibiu mais um comentário sarcástico, eu tenho jogo de cintura nestas horas mais agudas.

 

--Digo,  um anel assim não se dá para qualquer pessoa. Vê-se que ele gostava mesmo de você, apesar de tudo.

--Se gostasse, havia de ter ficado comigo e não ter me deixado aqui esperando por horas para no fim, sumir do mapa sem dó nem piedade. E eu, fiz o que fiz por amor, movida a paixão. Ele me enganou.

--Tem homem que é assim mesmo. Diz um monte de coisas, promete o mundo e  vai ver, é tudo mentira. Diz que é uma coisa, que trabalha e tal, é vagabundo de nem ter lugar onde morar.

--Nossa, ele não era tudo isso não. Mas cafajeste isso ele era sim.  Tanto era que depois do anel, nem um nada mais ele me deu! Nada mais!

 

Voltou a chorar e fui obrigado a secar uma lágrima que escorria pelo seu queixo, num gesto que a enterneceu. Afinal, ninguém é de ferro. Ela me olhou nos olhos e empertigou o corpo, sinal de que a terapia de choque já funcionava. Sentia que era estudado e expunha o mais que podia meu rosto de homem vivido e ela com seus olhos perscrutava meus sentimentos que àquela hora teimavam em manter-se escondidos. Sou lá homem que vou me entregar assim tão facilmente!

 

--Bem, e você já está se sentindo melhor?

--Melhor; aliás, foi bom desabafar com você aqui.

 

O sinal de cabeça era a dica ao garçom que sabia de minha fama e trazia mais que breve outra dose do cachorro engarrafado.  O olhar dela ora se dissolvia e recordações, ora se perdia em uma bruma crescente que a bebida traz de presente às almas que se tornam suas presas. Não que a quisesse bêbada, digamos assim, algo mais relaxada. Uma mão das muitas que eu tinha já palpava sua cintura e ela certamente não estava indiferente, tanto que me olhava cada vez mais interessada enquanto eu lhe contava as vantagens do acontecido a ela, quanto sofrimento havia sido evitado, quantas falsas coisas ela poderia ter sofrido, que descaminhos a poderiam ter levado a cantos obscuros sem que ela tivesse controle; o mundo é cheio de safos e de mal-intencionados.

 

--Você tem razão. Sabe? Você tem razão.

 

O jeito como pegou o cigarro traiu sua condição. Ela precisou de minha ajuda para acender o cigarro enquanto ela sorvia mais uma dose da santa fermentação. O garçom olhou do alto de sua malícia e fez que sim com a cabeça; era o momento de salvá-la de si mesma, era o momento de escoltá-la a um canto mais seguro, como um cavaleiro da távola redonda levava suas mulheres às torres dos castelos.

 

--Podemos ir a um lugar mais tranqüilo ainda, se você quiser.

 

O suave aquiescer só fez aumentar a voltagem de minhas várias mãos, qual deus Shiva em massagens ritmadas em seus ombros. Levantamos e ela, meio tonta, teve de ser amparada. Claro está que eu estava ao seu lado, incansável guerreiro, e lhe guiar os passos para que mais uma vez, mas pelo menos dessa vez, ela desse o passo certo em sua vida de garota abandonada.

 

O garçom, mais entendido do que eu nesses assuntos de dor de cotovelo, fez gesto de anotar na carteirinha; Mais uma para a coleção, ele deve ter murmurado. Eu sei que meus amigos sabem que tenho um coração do tamanho do mundo!

Escrito por Flavio Luengo às 23h50
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12/09/2009


A Mulher e a Concha

O pobre homem mortal desafia as potências celestes quando olha uma bela mulher. Ele não sabe o tamanho dos segredos que ela pode carregar consigo, não pode sequer ter a mais breve noção de que aquela bela figura, aquele andar lânguido, pode se tornar sua eterna delícia ou sua perene perdição.

Desafio o insondável a discordar de minhas palavras; quando vejo uma bela mulher, uma galáxia pulsa dentro de mim, mas as estrelas todas se condensam no brilho dos olhos de quem os fita, um quê de interrogativo e desafiador; quando me aproximo de uma mulher, a primeira coisa que me chama a atenção são seus olhos. Alguém já notou quão lindos podem ser os olhos de uma mulher? Alguém já foi fisgado aqui por um belo par de olhos que conquistam pela luminescência mais do que pela concupiscência?

Quando olho uma mulher, sinto sua condição serena de cálice sagrado, do receptáculo da energia mais iluminada do mundo; eu olho além das aparências. Qualquer um vê o que ela aprende desde cedo, que é caminhar docemente, que é apanhar dentro da gente o que a gente tem de mais sublime e de mais vil, tempestuosamente: nossos corações já se inflam de sentimentos suaves e desejos grosseiros, lado a lado. Eu procuro mais a essência.

Pobre homem mortal, pobre homem comum, em sua eterna busca pelo incomensurável. Ele pensa que conquista grandes mundos, pousa na lua, manda robôs ao infinito, mas quem está por trás das grandes conquistas é a figura que anda pareada a ele com um sorriso suave no rosto, estendendo a mão para que ele a pegue e a coloque entre suas palmas. Pobre homem que grita nos estádios de futebol, misturado aos cheiros da massa ululante enquanto ela, em casa, prepara o alimento que irá suprir toda uma família. Família, bela palavra, seu berço é a própria companheira que recebe todos os dons do mundo para criar o que existe de mais significativo. O berço da terra, a figura feminina, o oposto à aridez da condição do macho predador; a suave aquiescência, o perfume que habita as casas mais humildes, o doce carinho que traz à tona toda a volúpia de uma vida escondida, dentro de uma concha à beira-mar, nos caminhos do infinito que ela traça com os pequenos pés descalços.

Escrito por Flavio Luengo às 11h04
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20/07/2009


O Miado

Admiro os gatos e os espelhos, uns pela habilidade que usam de dissimular nossos próprios defeitos,relembrando-nos a toda hora que o tempo é nosso eterno companheiro e nossa permanente invenção e os outros por sua dissimulação perfeita da realidade: Pode um gato ser real ou será um simulacro como nossa realidade inventada?  Eu não sei de nada, já lí alguns contos de Borges tratando de espelhos ou seriam de Cortázar versando  sobre a sensibilidade dos felídeos companheiros  nossos desde a juventude da humanidade; duvido de há muito que sejam meros companheiros  ou que sejam o produto de nossa ancestral cultura de preservação de nossos mais caros momentos, como se pudéssemos guardar nos olhos dos múltiplos gatos nossas mais recônditas vicissicitudes e anseios. O que mais poderia ser dito sobre nossos mais íntimos desejos deles está explicitado  na relação de angústia da velha e seu gato, ela a tecer os casacos que seus netos jamais irão vestir e seu gato refestelado à sua sombra, satisfeito com o repasto e ambíguo nos movimentos de desfiar o novelo de lã e seus compridos bigodes. Não imagino o que pensa o siamês, com seu profundo desprezo e sua empáfia dolorosa, nem o que pensa a sua dona, adormecida pelo suave ronronar de seu bicho de estimação-como se o fosse. Acho mais que como Ibis, o guardião dos mortos, ele apenas aguarda o momento certo de raptar a alma da velha dona e levá-la para tão longe que ela não possa mais retornar.

Um gato ao espelho, essa então é a combinação perfeita da sincronicidade do deus Chronos com aquele que representa o mais profundo desejo de se eternizar que é Plutão, ou alguém ousa dizer que o Inferno está mais próximo da Terra do que o Céu jamais esteve? Quem é que ao ver um gato preto não sente até o sulfuroso cheiro do Canhoto com suas mil promessas de vida eterna, coisa que nem o evagelho apregoa a não ser para um  grupo de ungidos? A persignação que se segue tem mais o efeito de autoproteção ou de uma divinização jamais atingida e o gato está ali, com o maroto miado, cruzando as ruas ao seu jeito, sem ser molestado a não ser que surja um moleque ousado e lhe jogue as pedras no dorso brilhoso e malemolente, como um malandro de beco escuro, revirando as latas de lixo da História.

Dê-se o trabalho de observar. O gato,seja ele de raça, seja ele um espécime dos mais sórdidos, nunca é transparente. O espelho reflete o seu contrário, tudo o que está indo nele se foi, no sentido inverso. já ninguém pode saber o que vai na cabeça desses pequenos monstrinhos; são escusos, obscuros e nunca se sabe até onde vai a calma e a aparente tranqulidade deles, até que sobrevenha a unhada inimiga, a doce patada que afasta a mão do dono que imagina então que lhe falte ração, água ou mesmo um pedaço de bolo. Não, falta ao dono bom senso para trocar o bicho vivo e falso por um de pelúcia, menos auto-suficiente. Assim mesmo, ganham minha admiração pelo que representam de individualidade, de preservação do sentimento de natureza; a fera que se oculta em nossa espécie na deles vem à tona com facilidade e nos mantém a distância segura de seus rugidos. É algo que nos comove e nos atrai, numa ambivalência insegura. Já o espelho nos fornece a medida exata de nossa mortalidade. Qual deuses, qual nada, olhamos o reflexo e à vitalidade da juventude se sobrepõe a nossa mísera perspectiva de quanto mais maduros, mais incautos. Diga-o Fausto, que chamou a si Mefisto para num pacto perpetuar-se lindo ao espelho ou Dorian Gray, eternizado num quadro espetacular (como um espelho hiper-realista); só ele sabia o quanto se deteriorava ao olhá-lo em profundo horror.

Mire-se nos verdes olhos de um angorá: de onde vêm os reflexos faiscantes que lembram a rasante de uma onda clara se espraiando numa praia longínqua, num movimento de espreguiçar que traz a lembrança de antigas artes milenares, de tempos imemoriais onde homens, animais e deuses bebiam da mesma fonte? O rabo empinado se fixa numa posição, suas orelhas apontam para um local indefinido e seus pelos se eriçam, quando se diz que eles vêem coisas que os homens deixaram de ver: Seriam bruxos? Sim, já enfrentaram as fogueiras perseguidos como tais e sobreviveram. Talvez estejam conosco por pura concessão de Mercúrio ou como mensageiros de Diana.

O que farão estes seres quando se tornam livres de seus “amos” e circulam entre os móveis e gigantescos espelhos que se abrem aos seus gestos mágicos? Olhar-se-ão ao natural e sem nenhuma piedade, como o faço agora e habitualmente para agradecer o quanto a divindade me poupou ou sabedores de seu destino, soltarão um langoroso miado que chamará todas as gatas no cio em telhados acinzentados de nossas cidades ou tudo não passa de um rosnado maquiavélico a conjurar as mais baixas qualidades de todas as feiticeiras do Universo?

Não consigo imaginar mais nada de dentro desta gaiola em que me prenderam, de onde apiedado de mim mesmo observo o suave aproximar de meu fim, como um pássaro olha de longe o predador de sempre, falsamente seguro em sua alta morada. Eis que pego meu bichano e vou deitar: Quiçá eu acorde e amanheça num céu de brigadeiro.

Escrito por Flavio Luengo às 23h00
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25/05/2009


 

Foi nas cavernas de Aja, na Índia, que eu conheci os ecos de minha alma inquieta; ou foi nas cavernas da Índia que eu a vi, mais linda que nunca, entre luzes esfumaçadas e certeiras iluminando os Budas em suas formas douradas enquanto ela passava e me fitava sem nenhum tipo de preocupação que não o de fitar-me despudoradamente. Ela me fitava e eu reconhecia nela partes de minha inquieta alma, caverna de meus dias mais lúcidos, sombra de minha infância esquecida e ela, com seu sorriso acalentava em mim um sonho, que eu entrevia nos afrescos coloridos e abissais da parede da submarina gruta onde nossos corpos se enlaçavam, extenuados de lutas profanas.

 

Já não me lembro se foi na Índia ou num sonho quimérico, mas as formas dela eram perfeitas e voluptuosas, as curvas deliberadamente montadas, deliciosamente sensuais, lembrando as esculturas das paredes que nos cercavam, avermelhadas como suas bochechas e os reflexos em suas dilatadas pupilas, a pele do rosto esgarçada num leve sorriso matreiro enquanto eu a tocava com a ponta de minha língua ou será que foi apenas uma leve ilusão, teria sido ela que me tocou na escuridão do quarto onde ela dormia com mais cinco irmãs fogosas?

 

Certamente que não, foi em Maquiné ou na Caverna do Diabo, em estalactites que anunciavam as águas frias do inverno que se avizinhava e suas mãos cálidas pousadas nas minhas, num ônibus em excursão adolescente, misturado ao cheiro de botas e mochilas sumidas, calcinhas penduradas em varais de janelas de Minas, os gemidos dela, oh, cansados, ritmados, ousados, risonhos, perto de Ouro Preto, nas manhãs de uma estação perdida de trem onde resolvemos ficar juntos para ver no que dava.

 

Já não me recordo se foi naquela época que eu disse a ela que a amava e ela esperou eu terminar para me dizer que não, não podíamos ficar assim, enfim, ela sabia de mim e eu sabia mais dela, já não me lembro se o que disse morreu no céu de minha boca ou foi a língua dela que me calou em lascivo movimento, no escuro do ônibus, no fundo da Caverna, na gruta marinha cheia de diamantes do tamanho de bolas de bilhar ou na matéria esgarçada do onírico, no mundo ideal do sonho espelhado nas águas do templo oriental ou nas profundezas da terra distante.

 

Certamente sua volúpia era real, assim como suas curvas, que eu entrevia entre cirros e nuvens mais raras, no alvorecer em Ouro Preto, juntos nas pedras ancestrais de nossa procura conjunta pelo ouro inconfidente. Não, acho que foi mais uma torrente que nos levou ao delírio, ao riso frouxo da lassidão depois da explosão de nossos sentidos, foi na procura mútua de papilas, suores e cheiros que lavramos nossa mais profunda riqueza. Disso eu me lembro, até o momento em que nos achamos aqui, nas cavernas de Aja, cercado do mais profundo mistério, que ela se acercou de mim e , acho, disse que sim, que me amava, mas que não podíamos assim, enfim ela sabia de mim e eu mais dela, não podíamos.

 

Acho que aconteceu assim, ou fui sonhado por ela em uma caverna em Aja e me juntei a ela num movimento ritmado, oh, frouxo, abissal, quimérico, onírico, nas paragens de um templo submarino em Ouro Preto? Certamente que não, mas sua visão era real e seus olhos, grandes como dois diamantes luminosos, me fitaram e me disseram que sim, que agora estávamos livres.

 

Foi aí que...

 

Escrito por Flavio Luengo às 22h27
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15/05/2009


O Lado Bom das Coisas

Minha história começa pelo final. Minha mãe já me dizia, no meio de seu sofrimento, que tudo tem seu lado bom e seu lado ruim; ela conseguia ver o lado bom de tudo. Era impressionante!


Modéstia à parte, me acho bonita. Quando passo, me olham: Olham meu porte de deusa de ébano, olham meu perfil de sereia de rio, isto às vezes incomoda mas, e daí? Pelo menos sou olhada.

 

--Gostosa!

--Meu Deus, isso em casa...

--Se enxerga, malandro!

 

Não sou para qualquer um! É aí que começa minha história, num dia chuvoso, eu sozinha em casa, sem luz e à luz de uma vela que teima em sobreviver. Como se fosse minha chama interior, ela bruxuleia e enche de sombras as paredes da pequena sala de minha casa aconchegante, onde eu tiro minhas roupas ao chegar e desfilo como vim ao mundo, satisfeita pelo vento entre minhas coxas torneadas. Satisfeita da vida e comigo mesma, gosto do que vejo no espelho. Só não gosto de uma certa pinta, ela se acerca de...Bem, não vou contar tantas intimidades assim. É quando eu penso nele.

 

--Sinto tua falta, morena!

--Então, venha para cá!

--Tu sabes que não posso!

--Mas na prática...

--Não posso...ainda!

--Você me enrola! Quer o meu carinho e não luta por ele!

--Já conversamos sobre isto...Muitas vezes... não me faça sofrer! 

Ah, é sempre ele que sofre. Sempre ele, com seu egoísmo, sempre virado ao próprio umbigo; sempre ele, sempre sua família. E eu? Não conto nestas horas? Só tenho valor na cama? Só sirvo para lembrar a ele que ele deve se esquecer do que foi e viver o que poderia ser? 

--É para isto que ficamos juntos?

--Já falamos sobre isto... 

Ele sempre interrompe nossa conversa assim. Diz que me ama, mas fica dias sem aparecer, nem telefona. Eu olho para a janela embaçada e já nem sei se o que turva a imagem da cidade enevoada é dela mesma ou uma ilusão de meus olhos cheios de lágrimas que eu disfarço no dia a dia, no trabalho, nas ruas por onde passo leve como uma pluma e pensativa como uma estatua. 

--Minha nossa, é um monumento.

--Minha mãe precisa de uma nora assim...

--...

--Não sou uma qualquer! 

Não sou, não. Lá onde trabalho, todos conhecem meu sorriso. Dizem, eles dizem, que meus dentes parecem o teclado de um piano, de onde saem lindas notas musicais e perfumadas, olhem só, que elogio! Quem diz isto são meus amigos. E ele de vez em quando me despreza, diz que está cansado, que trabalhou muito e que prefere ficar em sua casa, que é onde mora sua família, não a nossa que é onde vive seu verdadeiro amor, que sou eu. Pelo menos eu acho que sou mas cá entre nós, que ninguém me ouça neste dia feio e maltrapilho, eu acho mesmo é que é comodismo puro. 

--Não seja tola!

--Não me chame de tola. É o que menos eu sou! Nunca mais diga isso de mim, ouviu?

--Querida...

--Não me venha com essa de querida, docinho, blá blá blá. Quero ações concretas. Eu faço tudo por você!

--Ficar nessa casa me esperando é fazer algo por mim, você acha?

--Saia de minha casa!

--Não quis dizer isso...

--Saia já! 

Bem, foi pelo final de um grande amor que principiei a contar minha história; às vezes o princípio é o fim e o fim pode ser um recomeço. Como não sou de ficar triste demais, como adoro os raios de sol que a vida nos traz, como amo de paixão andar pelas ruas leve e solta... 

--Gostosa!!!

--Pelo amor de deus, que saúde!

--Por essa eu me perdia, barbaridade tchê!

Enfim...Tudo tem o seu lado bom...

Escrito por Flavio Luengo às 23h25
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25/04/2009


Teoria da Relatividade

Tudo o que fiz foi te conhecer; sem tempo algum tive de escolher entre um fim ou um princípio como se houvesse tempo entre nós. Nada, nunca houve nada e em pouco tempo, começamos um mundo, um universo de sensações maravilhosas, eu sem tempo, você sempre cruzando meu espaço, relativisticamente falando. Cada qual ao seu modo, olhávamos de diáfanos espelhos nossos modos de ser diferentes, você meio insegura, eu sempre atento. Nunca, nunca pudemos nos dizer sequer uma palavra mais amena, nunca pudemos sequer nos tocarmos de modo menos tangencial ou mais substancial.

Agora que tudo acabou, resta-nos o consolo de que nossas velocidades se cruzem um dia, além, num vasto segundo de um tempo infinito, posto que dure ao menos para sempre, esse é meu profundo desejo mais do que de meu eu profundo; o desejo vem de fora mas também vem do toque na suave tela que separa nossos mundos, uma fina camada de energia, massa e rude interrupção.

Escrito por Flavio Luengo às 15h36
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21/03/2009


O Lago da Vertigem

Sempre que me vem a vertigem, lembro de teus olhos brilhantes, cintilantes como a luz da lua cheia refletida nas águas do calmo lago que se esvaiu, levando gansos, peixes, assombrações, militantes ecochatos e cisnes, lixo e dinheiro jogado em pencas para estranhas promessas e pedaços podres de madeira e barcos afundados que nunca chegaram a navegar. Lembro de tua voz ecoando na concha acústica, emanando dos galhos das árvores imensas que em dia de tempestade, tendem a cair nas vias públicas sobre carros estacionados e casais distraídos em performances mais do que suspeitas.

Há sobre a avenida que margeia o lago falecido cipós que pendem vindos de um bosque que faz as vezes de jardim do paraíso perdido de uma igreja onde fiz a primeira comunhão, de onde guardo a vaga lembrança de um gosto de pão sem sal e de uma fé que profunda vinha de uma poderosa sensação, hoje perdida, de paz, quietude e confiança absoluta num futuro que ora se mostrava distante, ora se mostrava enevoado mas sempre à frente, movendo as entranhas do mundo que entrava pela minha boca, num rito de respeito absoluto que culminava no beijo em um anel de rubi que fascinava os olhos de quem o via. Assim que eu sinto a vertigem, brilha o vermelho do rubi prometido que agora deve habitar outras mãos; lembro da figura do Cristo iluminada em uma moldura minúscula que guardei não sei onde e lembro dos teus olhos sorridentes, a fixar minha frágil figura, tão importante no mágico momento de receber a luz do mundo.

Vem a tontura e eu beijo a garrafa que me redime, cônscio de que da última vez, eu prometi que não o faria, mas novamente sorvo o acre sabor do imundo vício que me persegue e me consome, esquecido agora do insosso sabor da fé que movia as montanhas do mundo que agora são frágeis, seco que o lago está, com as sobras preenchidas de suas entranhas e com as estruturas de outrora abrigando peixes que ainda resistem em manter as guelras funcionando mesmo na lama que rescende ao passado de uma época que já não existe, como as mãos que ungiram meu sonho de vida, assim como seus cabelos esvoaçantes.

A vida é frágil e só eu sei o quanto custa saber disto na pele, este frágil envoltório que faz nosso limite com a realidade, este envoltório que resiste às intempéries; lembro de tua tez aveludada, de tuas orelhas minúsculas (como eu gostava delas) e vem a impressão exata, num sonho de medusas impossíveis de uma  lagoa de recifes que jamais pousaria na Sé, nem na Luz. Enfim, jamais saberia o sabor do salgado ar do amor se não fossem tuas mãos percorrendo minha nuca, em meio aos espasmos do incontrolável que nos unia.

Desta vez, eu prometo: A garrafa vai ao fundo do lodo onde se debatem cisnes perdidos, onde pessoas caridosas espalham baldes para salvar o que resta das tilápias, dos dourados, das multicoloridas carpas que habitavam o fundo, sedentas de pão jogado aos domingos por meninos irrequietos e famílias que admiravam a paisagem espelhada nos teus olhos, a copa das árvores aneladas de teus cabelos, ouvindo o som dos pássaros que revoavam à procura do diamante perdido.

 Vou te procurar, de uma vez por todas, de uma maneira definitiva, como se procura a melhor palavra para ornar um conto inexistente, uma rica rima num poema que teima em sair ou uma óstia que me trazia a beleza do Universo à minha boca.

É só passar e vertigem.

Escrito por Flavio Luengo às 19h58
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03/03/2009


A campainha de sua casa tocou duas vezes. Ele estava na sala lendo um livro de contos de um autor desconhecido e levantou aborrecido já pensando em quem seria àquela hora. Um vendedor de ilusões? Uma pregadora? Um assalto?

Abriu a porta e no portão havia um menino de seus cinco, seis anos, cabelos aloirados, sardento e olhos azuis que olhava ansioso para os lados. Ele, intrigado, olhou para os lados esperando alguém saltar sobre ele, porém nada aconteceu. Aproximou-se do menino acautelado.

--Como se chama?

A criança, com seu olhar assustadiço, lindos olhos de um azul profundo, olhou-o meio desconfiado e disse, sussurrando:

--Não sei.

--Não sabe seu nome??

--Não.

Começou aí uma tarefa digna de um detetive que ele se impôs: Procurar os pais daquela criança linda, que viera parar na porta de sua casa, aparentemente faminto, confuso e assustado.

--Deixaram você aí na porta?

--Sim. Me deixaram e não sei quem foi.

--Você tem seus pais? Isto é, sabe quem são seus pais?

O menino, pele clara e olhos redondos e cercados de sardas, pôs o dedo na narina direita e visivelmente incomodado com a pergunta, deixou-o atônito:

--Sei, mas eles me disseram para  não contar nada a ninguém sobre eles. Não agora.

--Como assim?

Decidiu ir ao Distrito Policial mais próximo. O policial, mais interessado em coçar a cabeça e olhar um aparelho de televisão surrado e antigo, onde jogadores corriam modorrentos atrás da bola que quicava de um lado a outro da telinha, atendeu-o com um bocejo.

--Em que posso ajudar?

--Quero registrar o seguinte: Este menino veio parar em minha porta!

--Então, não é seu filho?

--Bem, na verdade, sou divorciado e meus dois filhos moram com a mãe deles.

--Não pode ser uma produção independente da patroa?

--Não acredito que esteja dizendo isto assim, desta forma; afinal, vim lhe trazer a criança para dizer que ela pode ter sido raptada, roubada, sei lá e fugiu do cativeiro. Está com fome e assustada, confusa... É uma criança! E não sabe nem seu nome!

--Estou vendo! Mas, voltando à pergunta...

--... Não, minha ex—mulher não faria algo semelhante. Jamais abandonaria uma criança linda destas desta maneira. Não. Definitivamente não.

Ambos olharam para o menino, que coçava a cabeça imitando o policial de forma discreta, com um discreto sorriso nos olhos, aparentemente se divertindo com a situação. Seria impressão dele ou o menino os observava sempre que conversavam a respeito dele?

--Vou registrar sua queixa, mas definitivamente o senhor terá de levar este menino consigo até a justiça decidir qual será seu destino.

Ele se acostumara a viver sozinho, de tal forma que não tinha nada que uma criança de seus seis anos pudesse comer. Olhou o pequeno que brincava com os botões do rádio de seu carro enquanto ele procurava algum mercado aberto para comprar o que fosse necessário para alimentar o garoto.

--Você gosta de comer alguma coisa em especial?

--Adoro batatas fritas.

--Porcaria...!

--Uma delícia! Vocês fazem bem estas coisas aqui.

A frase soava esquisita, na boca de uma criança de seis anos, ainda mais na situação absurda em que se encontrava.

--Você não quer que o leve à casa de seus pais? Posso ir, eu deixo você lá!

--Acho melhor não.

--Por quê?

--Eles não iriam gostar nada, nada.

Olhou o garoto que impassível, continuava a mexer nos botões, dominando completamente suas configurações em questão de minutos.

--Onde aprendeu a mexer assim?

--Ah, meu pai tem um bem melhor que esse aqui—e apontou com certo desdém o rádio de última geração que ele instalara em seu carro, convencido pelo vendedor de voz esganiçada que lhe oferecera o produto.

O resto do caminho fizeram em silêncio, ele pensando no que dizer, o garoto examinando-o com olhos críticos e severos por um lado e repentinamente, doces e inquiridores por outro lado. Era impressão ou o matiz de seus olhos mudara um pouco? Chegou ao mercado e levou o menino consigo. Conheciam-no lá, sempre comprava as coisas mesmo quando ainda era casado para empanturrar os filhos de guloseimas. Ainda bem que não haviam puxado a mãe em gordura.

--Batatas fritas!

--Está bem, está bem. Vou levar, mas você tem de comer alguma coisa mais do que isso!

--De acordo, mon capitan.

Ele olhou o menino desconcertado. Definitivamente era surreal o que estava vivendo. Ele tinha mesmo cinco anos ou era um anão disfarçado de criança?

--Seus pais gostam de comer essa coisa?

--Adoram sua cozinha. Adoram, simplesmente amam o que fazem aqui.

--Aqui, onde?

--Aqui, ora.

Aqui. Simples assim, era aqui mesmo, em sua pequena mente perturbada sabe-se lá por qual motivo, talvez um seqüestro desbaratado, talvez a desova de um crime medonho, talvez o último remanescente... Ele decidiu não forçar mais, o pequeno adorava o pacote de batatas fritas que comia avidamente. Achou graça quando ele chupou os dedos e viu em seus olhos um tom violáceo que não havia visto antes. Seria a satisfação de ter algo nas mãos que cobiçava ou era a luz que batia de ângulos diferentes e refletia em suas pupilas?

Foi para sua casa e o garoto entrou correndo, como se fosse a sua. Ele entrou e procurou em sua sala tudo o que pudesse diverti-lo, manipulou a televisão de plasma como se já a conhecesse de longa data, zapeando os canais de forma vertiginosa enquanto ele arrumava um quarto que fora de seu filho mais novo e preparava o garoto para dormir. Ele parecia entender a situação e resignado, obedeceu a sua ordem de escovar os dentes e colocar um pijama que fora de seu filho e que cheirava a lavanda, ainda após três anos dentro do armário que fora de uma família e agora só lhe trazia lembranças dolorosas.

--Você está triste?

--Como sabe?

--Seus olhos. Você está triste com o pijama.

--Não é o pijama, mocinho.

--Eu sei. Posso por?

--Pode.

Ele o olhou embasbacado. Como era esperto! Sabia ler as emoções nas entrelinhas. Pôs o menino para dormir, apagou a luz e deixou um abajur ligado no chão, o garoto se deitou e logo se pôs a ressonar, quase que imediatamente.

Ligou a televisão.

Fatos estranhos vêm ocorrendo na parte leste do país. Há relatos de que crianças vêm sendo abandonadas por pais relapsos, aparecendo na porta das casas de pessoas estranhas, aturdidas e aparentemente desmemoriadas. A polícia local acha que pode ser ação de uma quadrilha de raptores que esteja deixando de lado o produto de seu medonho crime. Ouçam o relato de Jessica, uma solteira que vive sozinha há anos...

“Eu estava no banho quando ouvi a campainha. Fui lá e à beira da porta de meu trailer estava uma linda menina, de seus sete, seis anos. Linda. Eu a peguei para mim, ninguém me tira ela. É a filha que nunca tive; vou avisando...”

Relatos como esse vêm intrigando as autoridades; o governo federal foi mobilizado a investigar a origem das crianças; já se contam às dezenas. Espere, há mais... Há relatos de que são centenas...

Seu coração disparou. O que é isso? O que significa isso? Então não fui só eu, há outros! Que tipo estranho de acontecimento era este? Foi conferir o garoto no quarto. Ele se assustou, porque o menino estava de pé, ouvindo um rádio que falava sobre os estranhos acontecimentos no leste...

--Estão falando sobre mim, não é?Sobre mim, sobre... Nós...

--Não sei. Nós?

--Sim. Eu e... Os Outros.

--Outros?

--Você viu na televisão que eu sei.

--Você anda me observando, menino? Quem é você?

--Eu não sei, já disse. Meus pais pediram para não contar a ninguém, ainda não. Eles não querem que as pessoas perguntem muito. Sabe, não querem que você fique assim perguntando tanto.

--Eles sabem que está aqui?

--Sabem de todos.

--São... Bravos? Batem em você?

--Eles são bravos.

Seu olhar ficou á deriva, como se um transe dele se apossasse ou como se esperasse um sinal vindo de algures...

 

Soou a campainha, estridente, insistentemente.

--Quem será a esta hora?

--Meus pais. Vieram me buscar. Falei de suas batatas fritas! Falei de você. Eles não gostaram nada, nada...

Escrito por Flavio Luengo às 22h09
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15/02/2009


Consolo Final

Decerto exagerei quando me pus a andar sob a chuva, entre as árvores perto de um parque próximo de sua casa. Vamos convir que apaixonados fazem qualquer coisa, embora tenhamos de respeitar certos limites.

Daí a pular a cerca de tua moradia, arriscando-me a morrer espetado nas lanças do portão é outra coisa. Não que as mordidas do cão de guarda não tenham doído nada, afinal vinte pontos na coxa e dez no antebraço não vão me fazer cair de quatro. Não.

Porém, entrar em tua casa usando uma chave micha, presente de um gatuno que eu conheço de outras eras é um passo mais ousado ainda; entrar como um gato oculto nas frestas de sombra de tua sala, silencioso como um réptil e atento como um morcego ao menor ruído é mais ousado ainda. Só ouvia o tamborilar do meu sangue no tapete de tua saleta de estar, fruto das mordidas de teu pequeno Rottweiler.

Subir a escada que leva ao teu quarto, grudado como uma lesma à parede foi outro ato de bravura e desafio, decerto já despido de qualquer consideração ética e/ou filosófica. Saber que teu quarto fica à esquerda dos outros foi só lembrar de teu cheiro maravilhoso, de teu perfume que exala e demarca os territórios por onde passa tua figura.

Abrir a porta suavemente, com mãos de salamandra, olhar-te no escuro com olhos de coruja e ouvidos atentos como um tigre foi mais fácil ainda.

Nada se compara a observar o doce sobe e desce de tua respiração serena, sentir teu hálito perfumado enchendo minhas narinas obscenas, preenchendo o quarto de tua alma caridosa e cheia de alegria.

Ver-te acordada, perguntando ao frio ar da noite, com olhos assustados como os de uma corça: “Quem está aí?” foi quase um apelo sensual e de uma textura que só tua pele aveludada poderia ter.

Daí ao fugir como um pássaro ferido, pela mesma porta que entrei, fechando-a rapidamente e sem ruído foi como um sonho; descer as escadas rápida e calmamente foi como um raio; sair pela porta e espantar com um chute teu cachorro foi  como um trovão e pular novamente de volta grade sem rasgar a outra perna foi a última ousadia não sem antes ver tua janela se iluminar e ouvir teu grito novamente: “Quem está aí?” e notar as outras janelas se iluminando e decerto as outras pessoas olhando minhas marcas em toda a parte da sala, da escada, sem nenhum outro sinal de minha presença.

Ficar entre as árvores e lembrar teu perfume, antes de perder a consciência, foi o meu consolo final.

Escrito por Flavio Luengo às 19h46
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08/02/2009


Porfirio e o Amor

Seu olhar penetrante e o perfume forte que usava, aliado a uma conversa que fazia as incautas se prenderem pelas suas palavras o tornava irresistível. O pequeno bigode, o cabelo sempre meio desajeitado e um ar de desamparo o faziam o bebê predileto das moças, das menininhas em pleno desabrochar, das jovens casadinhas meio decepcionadas com seus maridos molengas e das viuvinhas e donas de casa que sempre o olhavam com ar de quero mais. Era essa a sua fama.
Quando ele despontava nas esquinas e se uma destas mães prestimosas estivesse a olhar a filha que ainda pulava amarelinha, vinha a chamada:
--Já para dentro! Filha minha não fica na rua onde anda cafajeste.

Cafajeste. Era sua fama. Fama ruim esta, grudava em sua pele e não saia dela de jeito nenhum. Tanto faz, ele pensava, porque o que tinha que fazer ele fazia bem feito. Não tinha uma que houvesse reclamado. Claro, já mudara de bairro algumas vezes porque sempre tinha um valentão, um ex-marido, um ainda corno ou um pai preocupado que o tocaiava e mais de uma vez saíra no braço com um desses desafetos, mas nada que o pudesse levar à cadeia ou, pior que isto, ao hospital.

--Cafajeste!

Assim o chamava a garota que saíra com ele há duas semanas, já devidamente substituída por outra, novinha em folha, que com ele era assim: Alta rotatividade, tinha que movimentar sua vida, nada de gente grudenta ou pegajosa. Quando a menina ameaçava com noivado, anelzinho, apresentação à sogra, e etc, vinha a clássica desculpa:

--Minha filha! Assim não dá. A gente já foi parar na cama, mas tão rápido quer que eu amarre meu burro à sombra? Francamente!

Pronto, mais um coração em frangalhos. Os soluços dela não o demoviam, ele como um trator passava a porta da casa da pequena, a mãe ainda com o pedaço de bolo no prato, pronta para servir o futuro genro quando se ouvia o bater do portão da entrada.
--Cafajeste! Eu disse que ele era um desses miseráveis! Você nunca me ouve!
--Mas mamãe, ele até me deu anel!

Em geral, quem dava o anel eram elas, seduzidas pelo potencial do moço, avassalador até a medula, perfumado até na cueca, malemolente até na alma.
Porfírio era seu nome. Esse nome provocava muita raiva em alguns, desprezo em muitas, indiferença em vários, mas uma coisa era certa. Como ele, naquela cidade, não tinha igual, não tinha como dizer que houvesse dois Porfírios porque havia um só, abancado em sua fama de conquistador, ladrão de corações e dançarino como poucos saberiam ser.
Até que um dia ele cruzou com a garota dos seus sonhos. A belezinha devia ter seus vinte e cinco, vinte e seis... Loura, linda e dona de um corpo escultural, estatura pequena, mas que sabia se impor aos que a olhavam, quando parava e admirava uma vitrine não havia quem não notasse seus cabelos iluminados, sempre espalhados ou numa trança que alcançava sua cintura. Ela cruzou com Porfírio, o tal dono do perfume irresistível! Qual o quê, o bigodinho se mexeu sozinho quando ele sorveu o ar à passagem da belezura. O perfume dela era indescritível, talvez almíscar, talvez alguma erva desconhecida a ele, o fato é que ele percebeu a presença dela antes da visão de seu corpo maravilhoso.

--Nossa! Essa é a nora que mamãe pediu a Deus!

Nossa amiga, que nunca foi boba, nem se dignou a olhar o autor da patifaria. Pensou consigo mesma:
--Coitado. Alguém precisa cuidar desse moço.

E foi só. Porfírio estava desconsolado! Como podia ser? Ele que sempre conquistava e deixava quem fosse a pé... A garota nem o notou, pior que isto, evidentemente nem se importou com sua presença. Isto mexeu com os brios dele, afinal, ele era ou não era um galã? Quem é que deixava as moças todas de queixo caído e boca trêmula? Ora, ele!

--Ainda pego esta loirinha. Ela que se cuide!

Olhou o perfil da moça se desvanecer na esquina em que despontara para a vida, logo de tarde, que era a sua hora de acordar das esbórnias das noitadas. Ele vivia de pequenos empregos, onde ficava por pouco tempo, até se fartar do patrão ou eventualmente bater de frente com o dono do negócio, sempre com a desculpa do horário rígido, da malcriação do patrão ou dos gênios incompatíveis dos colegas de trabalho. Colecionara uma boa dúzia de pessoas que o queriam ver pelas costas. Vez em quando arrumava uma viúva rica que o bancava por meses ou uma iludida que lhe passava alguma grana, já que ele, senhor de técnicas profanas, as levava literalmente à loucura. Assim ia nosso Porfírio, como se fora durar para sempre este seu canto, como seu encanto fosse eterno e sua malandragem infinita.

Mas algo se deu nele, logo que cruzou a moça de cabelos dourados. Ele se percebeu meio profano perto da deusa que com seus cabelos lembrava Vênus de Milo saindo da concha. Sim, ele era dado a ir a museus, ver quadros e gravuras e mais de uma vez se encantara por algumas damas que freqüentavam este meio artístico. Tivera até uma pintora entre suas namoradas, que ele deixara a ver navios quando ela lhe propusera uma coisa mais séria.

--Minha filha! Quer o quê, que eu me enjaule assim? Nem tem família para apresentar! Cadê seus pais? Moça séria, que quer casa, tem de ter casa! Você mora num pensionato de moças católicas! E nem tira os pelos das axilas! Francamente!

A coitada se viu falando sozinha, para variar e ele surripiou uma bela gravura de autoria dela que lhe valera um bom dinheiro, vendida que fora como um “quadro desses pintores menores que se tornarão famosos” na Praça da República.
Estava ele imerso assim no quadro da pintorinha quando assomou o vulto da belezura e ele, que já estava meio diferente, de repente notou o coração pulsar mais rápido, bater mais profundamente assim que pode divisar o sorriso dela, que o reconheceu.

--Ora, ora, se não é o moço que tem o perfume forte!
E passou por ele sorrindo e mexendo o corpo de forma enlouquecedora, sem tirar os olhos dos olhos dele.
--Mas, espere! Nem sei o seu nome!...

Ela, ligeira, rapidamente sumiu na bruma da multidão e ele, pela primeira vez, ficou ali parado, a olhar a formosura dela que se fora, como um vulto luminoso e cheio de amor para dar.
--Mas que mulher sacana! Joga o perfume no ar, sai de banda e ainda some! Quem será a tal?

No bar, aonde costumava arrotar suas façanhas pelas ruas da cidade, todos notaram que ele estava taciturno, calado naquele dia, mais do que no dia anterior. Ele bebericava um copo de uísque, sua bebida predileta, os olhos perdidos nas paredes cheias de quadros e fotografias de clientes. O garçom que o servia, acostumado com suas arruaças, logo o chamou à Terra.

--Seu Porfírio!
--Diga.
--Que bicho lhe mordeu? Quer mais alguma dose? Quer aquela batatinha que você adora?
--Vou lhe contar meu caro...

Logo correu a notícia, pelo bar, que o malandro se apaixonara. Que ele ia se regenerar. Que ele ia cortar o bigode! Que ele ia trabalhar duro e voltar a estudar, homem que é homem não pode ficar assim, dependendo de pequenos golpes ou da boa vontade das mulheres para sempre, homem que é homem cria raízes...

--...Raízes! Pois sim. O senhor vai é cair na gandaia logo logo, assim que puser um chapéu para trabalhar. Eu lhe conheço!
--É sério, Juvenal. Que mulher olha um indivíduo que tem minha fama?
--Cafajeste...?
--Pois é. As janelas se fecham ao malandro, cada vez mais. As poucas que tenho por perto são todas meio vagabundas. Bom, nem todas. Agora, uma mulher séria, destas que quer construir família, você acha que olha para mim?
--Eu acho que se o senhor casar vai é ganhar logo um par de chifres. Ou o senhor acha que elas não traem?
--São todas vagabundas.
--Bom, nem todas. Minha mulher é uma santa.
--Há controvérsias.
O garçom, agora carrancudo, despeja mais uma dose para Porfírio, que recusa o copo cheio.
--Hoje não vai ficar até mais tarde?

Corre o boato pelo bar. Porfírio, o conquistador barato, o cafajeste da cidade, o preferido das viúvas e das mocinhas recém-casadas, Porfírio, o pior entre os piores, o gostosão, o homem das grandes façanhas vai dormir só, sem as safadas de sempre.

A primeira coisa que ele faz quando chega em casa e se olha ao espelho é tirar o bigode ridículo.

--O que não faz o amor na vida de um homem, hein, cafajeste?

Dia nascendo, o sol encontra Porfírio trabalhando na praça. Varrendo a rua, metódico, economiza energia. Ninguém reconhece nele o vagabundo andarilho de sempre, tanto que mudou de bairro. O que ganha agora ele guarda um pouco. Quando vê o vulto da moça loira assomando lá, ao longe, onde costumava aparecer para a cidade cheia de perigos, mulheres vagabundas e assanhadas, quando vê o brilho dos cabelos majestosos dela aparecendo, ele se volta, como que a admirar o nascer de um sol, ou como a ver um quadro clássico, “Vênus de Milo”, enquanto que ela o olha vagamente e reconhece algo dele nele mesmo que ele já não reconhece mais, recolhido que está em sua paixão escondida. Ela nunca saberá que ele a adora, ela nunca terá sequer a noção de que ele, Porfírio, deixou de existir.

--O que não faz o amor na vida de um homem, hein, Porfírio?

A risada dela confirma seus piores tormentos...

Escrito por Flavio Luengo às 22h57
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A Espera

Até onde se podia ver, era o mar verde que se descortinava, com os recifes de coral delimitando uma lagoa cheia de peixes dourados, azuis, amarelos e fugidios. O mar em sua amplidão desafogava seu poder nas rochas para além dos recifes de coral, na zona de arrebentação. Ele fumava um cigarro, lentamente, sorvendo o sabor da nicotina sem prazer algum — prometera a si mesmo parar de fumar assim que pudesse. Ele recordava os olhos dela

De um verde profundo como as águas que banhavam os corais dos recifes, misturados ao azul dos peixes que ornavam aquele aquário natural, olhos profundos insondáveis às vezes, que o interrogavam deveras e ele se lembrava das questões profundas que se levantavam nos momentos em que podia fixá-los

Agora era tarde, anunciava o bramido das ondas, agora era tarde para ele tentar alguma coisa. Olhou ao longe o farol que ficava no promontório, a eterna lâmpada a iluminar fugazmente o litoral recortado pelas rochas e a branca espuma das ondas

Como pudera deixá-la ir? Como pudera ser tão insensível?

Anêmonas, polvos, lulas, mariscos, peixes minúsculos, um ouriço do mar, vários pássaros de maresia, gaivotas, algumas garças, pardais em mergulhos na areia e andorinhas em revoada, em meio ao vento cálido que anunciava uma noite quente e calma

Mais uma noite sem ela, onde ele revolveria os lençóis, onde ele se perguntaria onde ela andaria agora que era livre, mais uma noite em que ligaria o rádio e ouviria as músicas de sempre, mais uma noite sem o cheiro dela penetrando os poros da casa, mais uma noite sem ela

O que ele faria agora? Prosseguiria sua vida, como ela, que decidira se livrar daquele marasmo, daquela pasmaceira? Ou pegaria seu carro, sairia dali para nunca mais ter que ver ou ouvir falar daquela cidade litorânea?

Voltou os olhos à praia e viu um vulto. Largou o cigarro quando percebeu que a espera terminara.

Escrito por Flavio Luengo às 22h53
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O cinza chumbo do céu prenunciava chuva e das grossas, daquelas que enchem as ruas de água transbordante. Nesses dias assim ele preferia ficar recolhido em seu canto. O seu canto era um canto mesmo, numa esquina qualquer da grande cidade em que ele vivia, uma casa esquinada pequena e bem proporcionada, que fizera parte de sua família há anos e que ele resgatara quando estivera próxima de ser leiloada por falta de pagamento de seus impostos. O antigo inquilino a abandonara completamente, então as calhas estavam furadas, as janelas pensas batiam nas ventanias, as portas tinham cupim e o assoalho desabara na sala de estar, de umidade e de falta de cuidado. Desleixo mesmo. Ele nem fora avisado disto, apenas soubera da iminente ruína da casa quando fora avisado que deveria regularizar urgentemente a situação do imóvel.

Essa casa lhe trazia lembranças, fora a sua morada nos anos de sua distante infância, quando brincava com os irmãos nos fundos, onde havia uma edícula habitada por Mercedes, sua mãe negra, e Ortiz, seu marido que invariavelmente chegava bêbado, desorientado. Mercedes tinha uma voz poderosa, seus gritos para conter as traquinagens dele e de seus irmãos eram ouvidos de fora da casa. Na frente da edícula, uma maravilhosa ameixeira que nos meses da primavera ficava com a copa prenhe de folhas e ocultava os três irmãos no meio da espessa folhagem. Eles se escondiam lá quando percebiam que a situação era grave e também para olhar os pássaros que a habitavam.
O inquilino a serrara na base.

Em meio às dolorosas lembranças ele reformou a casa. Ele começou pelo telhado arruinado, telhas quebradas e forro podre. Muitos ratos e morcegos foram enxotados, mas ele achou coisas interessantes no sótão: Uma chapa de pulmão antiga que havia sido feita em seu avô tuberculoso; uma bolsinha de mulher que fora de sua prima e que ela esquecera em casa no dia em que ele e ela se encontraram secretamente no sótão, numa brincadeira que por um triz não encerra sua infância precocemente. Ele olhava a bolsa e se lembrava dela, grandes olhos castanhos, a testa alva e o sorriso que já deixava os anos inocentes para trás, cônscia de seu poder de sedução. Um alvo pescoço e orelhas bem formadas com voz de ninfa.

“—Primo!”

Era assim que o chamava, sempre a lhe contar as novidades de seu desabrochar de menina-mulher. Ele assim se recordava e quando terminou o telhado, passou a trabalhar junto com os pedreiros na recomposição do interior de sua velha morada. Canos furados acentuavam o desgaste e um vazamento secular foi resolvido, para a graça de seu vizinho que tinha mofo em sua sala de estar há anos. O inquilino nem se importava mais com os queixumes dele, simplesmente omitira tudo. Incrível como ele pudera deixar as coisas ficarem assim. Era o que sempre dizia sua mulher, também já entrada em anos, mas férrea em suas colocações. Ela havia sido o esteio de seu lar desde que haviam casado. Sempre o pusera para frente, sempre o elogiara em suas quedas que não haviam sido poucas. A crítica dela tinha fundamento, era que ele de certa forma era omisso e isso o magoava; no fundo reconhecia seu comodismo. Agora, ao reformar sua velha casa, pretendia dar uma espécie de retorno ao mundo e com isso de certa forma mostrar que de omisso ele não tinha nada.

“—Primo! Vamos brincar?”
“—Aonde?”
“—No sótão!”

Ele se lembrava do descompasso de seu coração ao olhar aquela menina que se transformava em mulher e sorria. Os anos passam, mas nossa energia juvenil se conserva como se dentro de uma cápsula do tempo e ele se orgulhava de saber que toda vez que quisesse poderia evocar aqueles momentos mágicos que passara com ela, em diversos tempos.

--O senhor vai querer uma parede inteiriça ou vai querer que aqui coloquemos um, digamos, elemento vazado?
--Eu preferia assim. Na verdade, gostaria que essa parede pudesse ser de vidro; mas não tenho dinheiro para tanto!

O arquiteto o olhava admirado, sua concisão era absurda e ele era metódico. Quando ele reformou a sala de assoalho afundado pode verificar que por pouco parte da casa não desabara, vítima de um solapamento de terreno oriundo de águas subterrâneas de uma antiga galeria pluvial que passava sob seu terreno. Tratou de providenciar que ela deixasse de existir, reforçando com concreto as bases da velha casa abandonada e que agora se revitalizava, tomando a forma de antigo rejuvenescido, elegante e formoso.

“—Primo!”
“—Sim?”
“—Preciso lhe contar uma coisa”

Ela lhe contara que tivera uma experiência com um homem mais velho, bem mais velho que ela e ela queria que ele soubesse que ele fora importante para ela, de modo que se apaixonara. Na verdade, ela iria se casar, isso tudo com seus quinze anos!

“—Casar?”
“—Sim! Ele é o homem da minha vida! É perfeito, tudo em seu lugar!”
“—Mas você tem 15 anos e ele quarenta. Não vai dar certo!”
“—Não seja pessimista! Não admito que fale assim dele!”

Ele saiu emburrado da conversa e ela toda feliz foi-se embora para casar com seu príncipe quarentão. Tomara desse certo, ele pensou com força ao subir a escadaria da igreja, rezando não encontrá-la ali; mas lá estava ela, mais linda que nunca, com os olhos postos no noivo que a beijava apaixonadamente. Ele provaria a ela que estava certo, afinal. Uma relação como aquela se sustenta enquanto há saúde; ela, inexperiente, não saberia nem tinha a mínima idéia do que viria a seguir, sem que ela pudesse fazer nada.

--Aqui.
--Aqui?
--Bem aqui. Aqui quero uma espécie de átrio. Vou colocar certas coisas aqui que quero que sejam vistas, ao se subir a escada para o sótão.

O sótão ele transformara em seu escritório, onde ele escrevia cartas, onde tocava seus discos prediletos e onde se punha a olhar a vizinhança, cercado das boas lembranças e das árvores que se tornaram gigantes com o passar do tempo. Sua casa, na rua, se destacava e paulatinamente foi atraindo mais gente interessada em recuperar o tempo perdido; várias casas velhas então rejuvenesceram e ele viu com orgulho que seu trabalho começava a dar frutos. Mais de uma vez recebeu propostas milionárias para vendê-la. Ninguém entendia como não o fizera ainda.
No dia em que ele finalmente terminou o que se propusera fazer, resolveu fazer uma surpresa a sua companheira de anos e anos, de modo que a buscou em sua casa atual e a levou para ver o que havia feito. Ela, maravilhada, viu a antiga casa como que remoçada por um passe de mágica! Desde o portão as primaveras acenavam. As Sete-Léguas faziam filas de flores e os pés de Manacá da Serra enchiam de flores brancas e roxas o caminho que ele fizera e que levava quem entrasse pela escadaria adentro, cercado de rosas, azuis, brancos e perfumes.

Ela já andava com dificuldade, mas era muito forte. Resistira ao tratamento, mas os médicos diziam que em questão de meses tudo se acabaria. Ele, resignado, resolveu fazer o que havia prometido a si mesmo, desde que olhara a velha casa.

Abriu a porta da sala, luminosa, com grandes janelas de vidro e tapetes como ela ousava sonhar em sua antiga morada. Levou-a até o pé da escada.
Não foi surpresa quando ela chorou ao subir a escada em direção ao sótão

Escrito por Flavio Luengo às 22h53
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